Indústria e Mercado
Agora é iFood vs. 99Food
iFood aciona 99Food por cooptar funcionários com non-compete via LinkedIn, intensificando guerra do delivery
29/08/2025, 16:45
A guerra entre os aplicativos de delivery no Brasil acabou de ganhar um novo capítulo. Em meio a uma acirrada disputa bilionária por market share, o iFood notifica 99Food através de uma ação extrajudicial, acusando a rival de práticas inadequadas no recrutamento de funcionários estratégicos.
O conflito expõe as tensões crescentes em um setor que movimenta US$ 21 bilhões anuais e coloca frente a frente algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo.
A notificação que esquentou a briga
O documento enviado em 30 de junho pela liderança do iFood exige que a 99Food cesse imediatamente a prática de abordar colaboradores que possuem cláusulas de não concorrência em seus contratos de trabalho.
Recrutadores da empresa chinesa estariam contatando profissionais pelo LinkedIn, afirmando explicitamente que o compromisso de non-compete "não seria um problema" para uma eventual contratação.
Esta estratégia de recrutamento levanta questões sérias sobre proteção de segredos comerciais e concorrência desleal. De acordo com especialistas jurídicos, as cláusulas de não concorrência são válidas no Brasil quando atendem critérios específicos como limite temporal razoável, compensação financeira ao funcionário e especificação clara das atividades restritas.
Histórico de controvérsias internacionais
A polêmica não é isolada. O iFood relembra que práticas similares já foram atribuídas à Didi Chuxing, controladora chinesa da 99Food, em outros países. Em fevereiro de 2017, a AutoNavi Maps acusou a Didi de usar "meios injustos" para cooptar executivos e engenheiros na China, com funcionários supostamente copiando dados confidenciais antes de se demitirem.
Esse precedente internacional adiciona peso às preocupações do iFood sobre a possível transferência de informações estratégicas e know-how empresarial para a concorrência.
Guerra judicial tripla
A situação se torna ainda mais complexa quando consideramos que a 99Food também enfrenta ações da Keeta, marca da gigante chinesa Meituan que investirá R$ 5,6 bilhões no Brasil. A Keeta acusa a 99Food de implementar "cláusulas de bloqueio" em contratos com restaurantes, alegando que foram criadas especificamente para impedir sua entrada no mercado brasileiro.
Em contrapartida, a 99Food processou a Keeta por suposta concorrência desleal, acusando a rival de copiar elementos visuais de sua marca, incluindo cores, tipografia e até design de uniformes para entregadores. O resultado é um emaranhado judicial que reflete a intensidade da competição no setor.

Imagem: exame.com
O mercado bilionário em disputa
Os números explicam porque a briga é tão acirrada. O iFood mantém uma posição dominante com mais de 80% de participação no mercado brasileiro de delivery, atendendo 55 milhões de usuários em 1.500 cidades e processando cerca de 120 milhões de pedidos mensais.
Para defender essa liderança, a empresa anunciou investimentos recordes de R$ 17 bilhões entre abril de 2025 e março de 2026, representando um aumento de 25% em relação ao período anterior. Esse montante será direcionado para tecnologia, marketing, inteligência artificial e crédito para restaurantes parceiros.
Estratégias agressivas dos concorrentes
A 99Food retornou ao mercado brasileiro após encerrar operações em 2023, agora com uma estratégia agressiva baseada em taxa zero para restaurantes por dois anos e pagamentos diários de até R$ 250 para entregadores de alta produtividade. A empresa investirá R$ 1 bilhão na criação de um "super app" que integre mobilidade, delivery e pagamentos.
Paralelamente, a Keeta promete revolucionar o setor com tecnologia proprietária que otimiza rotas e gerencia pedidos de forma mais eficiente. A empresa já conta com 120.000 entregadores cadastrados e planeja expandir para 1.000 cidades até o final de 2026.
Aspectos legais das cláusulas de não concorrência
No Brasil, as cláusulas de non-compete são reconhecidas pela jurisprudência trabalhista quando respeitam critérios específicos. Para serem válidas, devem estabelecer prazo razoável (geralmente entre 6 meses e 2 anos), delimitar território de atuação, oferecer compensação financeira ao ex-funcionário e manter proporcionalidade com a função exercida.
A Lei de Propriedade Industrial considera a exploração de segredos empresariais como crime de concorrência desleal, fornecendo base legal para a notificação do iFood. O objetivo dessas cláusulas é proteger informações sensíveis, estratégias comerciais e vantagens competitivas desenvolvidas pelas empresas.
Impacto no ecossistema de delivery
Esta disputa acontece em um momento crucial para o setor. O mercado brasileiro de delivery deve movimentar US$ 21,18 bilhões em 2025, com projeção de crescimento anual de 7% até 2029, quando pode atingir US$ 27,81 bilhões. O setor já representa 0,64% do PIB nacional e gera mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos.
A entrada de novos players com investimentos bilionários pode beneficiar consumidores através de preços mais competitivos e melhor qualidade de serviço. No entanto, também intensifica a pressão sobre restaurantes e entregadores, que se veem no centro de uma guerra comercial que determina suas condições de trabalho e remuneração.
O futuro da concorrência
A notificação do iFood contra a 99Food por práticas de recrutamento inadequadas representa apenas a ponta do iceberg de uma transformação profunda no setor de delivery brasileiro. Com gigantes chinesas investindo bilhões e estratégias cada vez mais agressivas, o consumidor pode se beneficiar de maior competição, mas as empresas precisarão navegar cuidadosamente por questões legais e éticas.
O desfecho destes conflitos judiciais estabelecerá precedentes importantes para práticas comerciais no setor, definindo os limites entre competição saudável e concorrência desleal. Enquanto isso, o iFood trabalha para manter sua hegemonia, investindo pesadamente em tecnologia e parcerias estratégicas para enfrentar o que pode ser o maior desafio de sua história.
A resposta final ficará nas mãos dos consumidores brasileiros, que decidirão através de seus pedidos qual plataforma oferece a melhor experiência de delivery no país.
Fonte: Startups