Brasil
Negócios
Indústria e Mercado
Produto
Keeta nem chegou ao Brasil e já quer briga com a 99Food
Keeta da Meituan aciona CADE contra 99Food por cláusulas anticompetitivas que bloqueiam entrada no Brasil
27/08/2025, 00:00
O mercado brasileiro de delivery de comida está no centro de uma batalha jurídica que pode redefinir o setor. A Keeta, operação internacional da gigante chinesa Meituan, levou sua disputa com a 99Food ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), escalando um conflito que começou nos tribunais paulistas e agora ganha proporções nacionais.
Keeta denuncia bloqueio da 99Food
A Keeta da Meituan acusa a 99Food de implementar estratégias que impedem a entrada da empresa chinesa no mercado brasileiro. O documento protocolado no CADE revela que a 99Food estaria utilizando cláusulas de banimento em contratos com restaurantes parceiros, especificamente vetando qualquer relação comercial com a operação da Meituan.
A cláusula 12.9 dos contratos apresentados pela Keeta ao órgão regulador é explícita: estabelecimentos que firmam acordo com a 99Food não podem "celebrar qualquer tipo de relação comercial, contratual ou institucional com empresas pertencentes ao grupo econômico da Meituan/Keeta".
Esta prática, segundo a empresa chinesa, constitui abuso de direito e viola princípios básicos das relações comerciais no Brasil.
Valores milionários em disputa
Os números envolvidos na disputa impressionam. A Keeta alega que a 99Food abordou mais de 100 redes de restaurantes no país, oferecendo pelo menos R$ 900 milhões em pagamentos antecipados vinculados à assinatura desses contratos restritivos. O montante equivale a 90% do R$ 1 bilhão que a Didi (dona da 99) anunciou para reinvestir na 99Food após seu retorno ao mercado brasileiro.
Esta estratégia da 99Food não é casual. A empresa voltou ao Brasil em 2025 após encerrar suas atividades em 2023, e agora busca se reposicionar no mercado antes da chegada da Keeta, prevista para o quarto trimestre deste ano.
Defesa jurídica cruzada
A 99Food não ficou passiva diante das acusações.
Em movimento de contrapartida, a empresa protocolou ação judicial contra a Keeta, alegando que a marca chinesa teria imitado elementos distintivos da 99, incluindo design da plataforma, combinação de cores e uso de elementos gráficos que formariam efeito similar ao número 99.
A 99Food defende suas práticas como “estratégia comercial em camadas” para proteger participação em um mercado altamente competitivo, baseando-se em decisão do CADE de 2023 que estabeleceu limites para exclusividade no setor de delivery.
Expansão internacional da Keeta
Tony Qiu, executivo que comanda a operação brasileira da Keeta, possui histórico relevante no mercado nacional. Ex-CEO da 99 no Brasil, Qiu agora lidera a expansão internacional da Meituan sob a marca Keeta, tendo já estabelecido operações em Hong Kong (2023), Arábia Saudita (2024) e Catar (2025).
A experiência prévia de Qiu no mercado brasileiro adiciona camadas de complexidade à disputa, considerando seu conhecimento interno das estratégias da 99 e do cenário competitivo nacional.
Planos ambiciosos da Keeta no Brasil
A Keeta planeja investir R$ 5,6 bilhões no Brasil até 2026, com metas que incluem presença em 100 cidades de 15 regiões metropolitanas e cadastramento de 100 mil entregadores. A empresa mira o longo prazo para competir diretamente com o iFood, que detém aproximadamente 80% do mercado nacional de delivery.
O modelo de negócio da Keeta promete não exigir exclusividade dos restaurantes, contrastando com práticas históricas do setor. A empresa também avalia implementar tecnologias como drones e veículos autônomos para entregas, aproveitando experiência adquirida na China.
Contexto regulatório e competitivo
O mercado brasileiro de delivery vive momento de intensa movimentação. O iFood anunciou investimentos de R$ 17 bilhões entre 2025 e 2026, enquanto o Rappi prometeu R$ 1,4 bilhão nos próximos três anos. A chegada da Keeta e o retorno da 99Food transformam o setor em arena de bilionários investimentos chineses versus domínio estabelecido.
O CADE tem papel crucial neste cenário. O órgão já investigou práticas de exclusividade no setor e estabeleceu limites para o iFood em 2023, criando precedente regulatório que agora é testado pela disputa entre Keeta e 99Food.
Impactos para o ecossistema de delivery
Esta batalha jurídica pode definir como novas empresas entram no mercado brasileiro de delivery. Se o CADE considerar as práticas da 99Food anticompetitivas, estabelecerá precedente importante para proteger a concorrência no setor.
Para restaurantes parceiros, a disputa representa oportunidade de negociação mais favorável, com empresas competindo por exclusividade através de melhores condições comerciais. Entregadores também podem se beneficiar de maior competição entre plataformas por profissionais qualificados.
O consumidor brasileiro, por sua vez, pode ser o maior beneficiado caso a chegada de novos competidores resulte em melhores preços, menor taxa de entrega e maior diversidade de opções no mercado de delivery.
Próximos passos
A 99Food optou por não comentar o processo no CADE, enquanto a Keeta mantém pressão através de ações simultâneas no judiciário e no órgão regulador. A decisão do CADE pode demorar meses, mas seus efeitos moldarão o futuro competitivo do delivery brasileiro.
A entrada da Keeta no mercado brasileiro, prevista para os próximos meses, ocorrerá sob intensa escrutínio regulatória, estabelecendo teste importante para a capacidade do Brasil de equilibrar competição internacional com proteção do mercado doméstico.
O desfecho desta disputa determinará se o Brasil manterá seu mercado concentrado nas mãos de poucos players ou se abrirá espaço para maior diversidade competitiva no setor de delivery de alimentos.
Fonte: Neo Feed